VER PARA NÃO OLHAR: A CEGUEIRA BRANCA, A CENSURA E OS SONHOS DE ANGÚSTIA

 

VER PARA NÃO OLHAR:

A CEGUEIRA BRANCA, A CENSURA

E OS SONHOS DE ANGÚSTIA[1]


José Saramago   Por Liliane Camargos[2 
 
Muito nos impressiona a obra de José Saramago (1922 - 2010) por sua genialidade criativa e sensibilidade para questões humanas. 

 

 

José Saramago

Autor portugês de Cegueira Branca, José Saramago,

vencedor do Prêmio Nobel de Literatura

 

 

Em Ensaio sobre a cegueira (1995), sobre o pano de fundo de uma história intrigante, somos, particularmente, expostos do início ao final do livro a acontecimentos que provocam, ao mesmo tempo, mal-estar frente às incômodas situações descritas e incitam reflexões, por exemplo, sobre pontos fracos dos nossos pilares sociais. Intrigante em particular para nós, desde o primeiro contato com tal obra foi o fato de Saramago descrever uma cegueira, mas não uma cegueira qualquer.

 

Falta de luz, escuridão, trevas, todas são palavras associadas à condição concreta ou metafórica de cegar-se. Em consonância com essa ideia de que a cegueira está relacionada com a pouca quantidade de luz que penetra os olhos e que, para quem possui dificuldade de enxergar, o aumento da luminosidade é uma medida possível, temos o exemplo histórico e paradigmático de nosso imperador D. Pedro II que pode ser lembrado aqui. Numa nobre atitude, doa um de seus terrenos na beira do mar e determina, através do Decreto Imperial n.º 1.428, de 12 de setembro de 1854, a construção do Instituto Benjamin Constant, virado para o sol[3] com o objetivo de facilitar a entrada da maior quantidade possível de claridade na edificação.

 

Voltando a Saramago e seu livro, contemos resumidamente a história de Ensaio sobre a cegueira. Um dia qualquer um homem dirigia seu carro normalmente, mas quando estava parado esperando abrir o sinal para poder prosseguir em sua trajetória, repentinamente, percebe que não via mais, fica cego. Diferentemente de outros tipos de cegueira, essa é branca. O que parecia se tratar de um fato isolado, se transforma numa epidemia com proporções incalculáveis: com exceção da mulher do médico que atendeu esse homem primeiro a cegar, no avançar da história, não temos notícias de outro vidente.

Comportamento provocador de indignação já se apresenta nas primeiras páginas: um voluntário que gentilmente se dispõe a ajudar o primeiro cego, conduzindo seu veículo, mostra a que veio logo em seguida: ao entregar o homem cego e desorientado em sua casa, enxerga ali uma boa oportunidade e rouba seu carro, passando a partir daí a ser nomeado como o ladrão. Os personagens de Saramago não possuem nomes próprios, ao se perder a visão, perdem também sua identidade. Temos uma sucessão de nomeações: a rapariga dos óculos escuros, o garotinho estrábico, o médico, o velho da venda preta, etc.

Frente ao desconhecido de uma epidemia de cegueira branca sem causa conhecida e sem contenção possível, o desespero se instaura. Os primeiros doentes são isolados do restante da sociedade num edifício que em outros tempos funcionara um hospício. São obrigados a sobreviverem cegos e sozinhos, proibidos de saírem enquanto havia soldados videntes a vigiá-los.

Toda a infra-estrutura existente se desfaz, fontes de energia, água e alimentação ficam escassos, meios de transporte simplesmente param de funcionar: o caos se instaura... E, o que seria o esperado? Todos se unindo, se organizando e ajudando de forma solidária? Não é bem isso que acontece. Estupro, saques, mortos e lixo pelas ruas da cidade, cada um buscando se proteger da ameaça da cegueira, se resguardar dos absurdos, se defender uns dos outros. Em síntese: um autêntico e tenebroso pesadelo!

Ao refletirmos sobre a cegueira branca associada com a situação hipotética descrita por Saramago, nos surpreendemos ao encontrar um interessante paralelo com a teoria da psicanálise relativa à interpretação dos sonhos.  O que da dinâmica psíquica subjacente aos sonhos - sua formação e vivência - pode se equivaler à metafórica cegueira branca e ao fechar dos olhos, à exposição a situações de horror e à prática de ações inimagináveis?

Quando sonhamos, somos confrontados com aberrações de todos os tipos. Não raro temos a sensação de estranheza, de falta de lógica e a certeza de que na vida real não seríamos capazes de fazer as ações representadas nos sonhos. Freud com sua ousadia veio nos ensinar que esse absurdo é aparente. Os sonhos, o mais estranhos possíveis que possam parecer, são, sem exceção, dotados de sentido.

Experiência que faz parte da vida psíquica dos seres humanos, o sonho possui um ponto de partida comum. Sua motivação primordial se baseia em um desejo insistente que encontra uma brecha para se manifestar durante o adormecer. E Freud vai mais além ao classificar este tipo de desejo como inconsciente e infantil. Desejo muito bem guardado e oculto da consciência até então, precisa, por sua aparição, agora, pagar um pedágio para a economia psíquica: precisa ser distorcido, censurado.

No cenário composto predominantemente pelos restos diurnos, por memórias recentes, vivenciamos situações de todos os tipos: banais, prazerosas e algumas extremamente angustiantes. O que determina o roteiro que será ao mesmo tempo exibido e vivido pelo sonhador é o resultado do que Freud chamou de trabalho dos sonhos. Esse trabalho dos sonhos – de transvestimento do desejo – sob direção da censura é composto por sua vez pelos mecanismos de condensação, deslocamento e elaboração secundária 

Na trama da psicanálise do olhar podemos traduzir assim: sonhar é uma forma de exibição, de ver algo desejado tomando forma e, ao mesmo tempo, de manter os olhos fechados para esse desejo. Num sonho, tentamos dosar o grau de abertura de nossas pupilas; permitimos que os olhos se abram um pouco mais e, literalmente, criamos as imagens necessárias para essa solução de compromisso, vemos e não vemos ao mesmo tempo, somos autores e expectadores “passivos” da cena onírica.

O mecanismo guardião que controla o grau de abertura de nossas pálpebras é a censura. Cumprindo sua função honrosa, ela cria um anteparo que nos protege, quando possível, da angústia, tecendo um envoltório psíquico para o desamparo de lembrar/ver/saber demais. O que ocorreria caso ficássemos sem esse anteparo, sem essa proteção? Vislumbramos essa realidade psíquica nos efeitos dos sonhos de angústia e chegamos novamente até a sociedade assolada pela cegueira branca de Saramago: um pesadelo sem limites.

Com a “cegueira branca”, temos um homem com medo, que mata para sobreviver, que discrimina e classifica seu semelhante por alguma característica sem lhe interessar saber o nome dessas pessoas, ou seja, um homem que revela seu lado insuportável, que não deveria ser visto. Temos um homem que se depara com sua fragilidade e desamparo absolutos, que se demonstra completamente dependente da visão física. Ver nos sonhos e na cegueira branca é também uma forma de não ver, de se disfarçar o que não pode ser visto, a melhor opção para camuflar o incessantemente negado.

Por isso, supomos, a cegueira branca indica não uma cegueira, mas um excesso de visão. Encontramos um homem que perde seu anteparo criado pelo recalque e que se desorienta quando passa a ver demais, jogando por terra todos os construtos que mantêm sua estrutura social de pé. Ele vislumbra as consequências do fim do recalque e a explicitação desordenada das pulsões. Saramago não cegou o homem; ele o fez ver algo insuportável, abriu seus olhos e o fez ver demais: fez o homem ver a si mesmo.

O efeito de uma cegueira branca, assim como a descrita na obra de Saramago, é exatamente o efeito da ofuscação, do deixar de ver pelo excesso de luz, o que ocorre quando se dilata a pupila em grau elevado: não vemos nada por ver demais[4]. A realidade entra num grau exagerado e cega a retina, saturando-a pelo excesso de luminosidade. Temos que fechar os olhos e controlar a quantidade de estímulos e excitações que penetram em nós a todo o momento. Se essa excitação exceder os limites suportáveis por nosso aparato psíquico, nós a limitamos, fechamos completamente nossos olhos e nos cegamos.

Os sonhos de angústia, diríamos, representam um instante em que abrimos demais nossos olhos e acabamos vendo o insuportável do que foi rejeitado, ou seja, um momento em que vislumbramos a “cegueira branca” de Saramago. São aqueles sonhos em que um desejo onírico foge à censura e à sua distorção consequente, fazendo com que o sonhador experimente sensações desagradáveis. Eles ocorrem quando a censura está total ou parcialmente ausente, e “a subjugação da censura é facilitada nos casos em que a angústia foi produzida como uma sensação imediata decorrente de fontes somáticas”.[5]

Em outras palavras, quando surge a necessidade de uma defesa contra algum desejo, ele é submetido à censura e à distorção, ou seja, ao fechamento necessário das pupilas para que se torne aceitável para todas as instâncias envolvidas. Nos sonhos, “não há neles nada de arbitrário”.[6] Até na dúvida sobre a exatidão do relato de um sonho, ou de algum de seus pormenores, Freud afirma que aí também há “um derivado da censura onírica, da resistência à irrupção dos pensamentos oníricos na consciência. Essa resistência não se esgotou nem mesmo com os deslocamentos e substituições que ocasionou; persiste sob a forma de uma dúvida ligada ao material que foi admitido [na consciência]”.[7]

(...) alguns sonhos que são realizações indisfarçadas de desejos. Mas, nos casos em que a realização de desejo é irreconhecível, em que é disfarçada, deve ter havido alguma inclinação para se erguer uma defesa contra o desejo; e, graças a essa defesa, o desejo é incapaz de se expressar, a não ser de forma distorcida.[8]

O “fechar os olhos” e o esquecimento dos sonhos também se equivalem. Freud apresenta a falta de garantia que temos de conhecer os sonhos tal como realmente ocorreram, tendo em vista uma tendência comum ao esquecimento de parte dos sonhos, ou de sonhos inteiros na vida de vigília, devido aos efeitos da elaboração secundária e da organização que damos aos sonhos ao relatá-los. Com o passar do dia, também é comum acentuar-se o esquecimento dos sonhos, considerado por Freud como tendencioso e, em grande parte, como efeito da resistência, pois é muito mais “frequente o sonho arrastar consigo para o esquecimento os resultados [de sua] atividade interpretativa do que [sua] atividade intelectual conseguir preservá-lo na memória” (FREUD, Op. Cit., p. 294).

 Fundamentalmente, o esquecimento estaria relacionado ao recalque. Segundo ele, o recalque “(ou, mais precisamente, a resistência criada por ele) é a causa tanto das dissociações quanto da amnésia ligada ao conteúdo psíquico destas”. Além disso, “o estado de sono possibilita a formação de sonhos porque reduz o poder da censura endopsíquica” (Idem, p. 294).

 Fechamos mais uma vez, progressivamente, nossos olhos, depois de os termos abertos durante a noite. Freud, porém, tenta manter essa abertura e dispensa sua interpretação, tanto a elementos mais ínfimos e insignificantes, quanto aos mais certos e nítidos, ou seja, atribui idêntica importância “a cada um dos matizes de expressão linguística em que eles nos forem apresentados” (Ibidem, p. 295).

 Outro movimento ao qual daríamos a mesma conotação de fechar os olhos é o que Freud identifica nas teorias de sua época sobre os sonhos como “uma tendência que visa a disfarçar as circunstâncias fundamentais em que se formam os sonhos e desviar o interesse de suas raízes pulsionais”.

 

Concluindo, reafirmamos a função da censura, com as palavras de Freud: “Assim, podemos notar claramente a finalidade para a qual a censura exerce sua função e promove a distorção dos sonhos: ela o faz para impedir a produção de angústia ou de outras formas de afeto aflitivo”.[9] A censura é mais uma tentativa de cegar o sujeito. É mais uma forma de fechar os olhos ou, então, de controlar a abertura deles, pois distorcer as coisas é apresentar para si mesmo uma forma aceitável de algo recusado. Temos um sonho e, pela ação da censura, nos esquecemos dele: fechamos nossos olhos novamente, agora, porém, imersos no escuro. E a censura em Ensaio sobre a Cegueira, onde estaria? Além da já dita cegueira branca que cega/censura totalmente pelo excesso, a censura se manifesta, por mais paradoxal que possa parecer, não por meio de quem não vê, mas também pelos olhos de um vidente, a mulher do médico, única pessoa que continua enxergando durante a trajetória de cegueira das demais pessoas, dando testemunho de toda uma organização que se tornou falida e, ao mesmo tempo, dosando as informações que transmitia para seus companheiros cegos, servindo, assim, de seu anteparo, mantendo seus olhos fechados.

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Referências:

CAMARGOS, L. Do ver ao perder de vista: a psicanálise do olhar. Petrópolis: KBR editora, 2012.

FREUD, S. A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão (1910).Rio de Janeiro: Imago, 1995. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 11).­­­________. A interpretação de sonhos (1900). Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 5).________. A interpretação dos sonhos (1900). Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972.(Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 4).________. Edição eletrônica brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1999. (Legível por máquina).________. Interpretação das afasias. São Paulo: 70 Editora; Persona, 1997. ________. O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago, 1995. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 19).________. Recomendação aos médicos que exercem a Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1995. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 12).________. Sobre o início do tratamento. Rio de Janeiro: Imago, 1995. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 12).________. Sobre o narcisismo: uma introdução. Rio de Janeiro: Imago, 1995. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 14).

 

SARAMAGO, J. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

 


[1] Este artigo é baseado em um trecho do capítulo “Algumas considerações sobre a psicanálise do olhar” do livro Do ver ao perder de vista: a psicanálise do olhar (2012).

[2] Psicanalista, Mestre em Teoria Psicanalítica pela UFMG, Psicóloga Judicial do TJMG, Professora na Fundação Escola Superior do Ministério Público (FESMPMG). E-mail: Questo indirizzo email è protetto dagli spambots. E' necessario abilitare JavaScript per vederlo. .

[3] Nomeado Imperial Instituto dos Meninos Cegos a princípio, foi a primeira instituição no Brasil criada para atender a população cega e hoje se tornou um centro de referência e oferece diversos serviços para a população com deficiência visual, para profissionais e instituições. É possível ler mais sobre o Instituto e sua história na primeira edição da Revista do Instituto Benjamim Constant no site: http://www.ibc.gov.br/?catid=4&blogid=2&itemid=408 .

[4] O magnífico filme Blindness de Fernando Meirelles (2008) cujo roteiro foi baseado no livro Ensaio sobre a cegueira (1995) representa, com a filmagem e regulação das câmeras, a nosso ver, a cegueira branca de forma análoga ao que descrevemos com relação aos olhos: temos cenas muito claras justamente pelo aumento da abertura, pelo excesso de exposição do filme à luz. Ele não deixou entrar menos luz e informação, mas sim o contrário para atingir o efeito desejado.

[5]Idem, p. 293.

[6]           FREUD, 1900, p. 547.

[7]Ibidem, p. 578.

[8]Ibidem, p. 176.

[9]Ibidem, pp. 293-294.